"Flores Partidas", o niilista tal qual ele é.

 


Hoje, tive o prazer de assistir novamente ao filme de Jim Jarmusch, “Flores Partidas”. Trata-se de um drama protagonizado por Bill Murray e com a participação de Sharon Stone, Julie Delpy, Jessica Lange, entre outros.

É um dos filmes que mais perfeitamente reflete a postura niilista de um homem de meia-idade, indiferente à sociedade e à vida. Contudo, apesar dessa desconexão com o mundo, ele busca estabelecer laços com a humanidade e acaba por encontrar, mesmo que transitoriamente, um significado existencial nessa busca.

Bill Murray faz o papel de Don Johnston, um homem bem-sucedido no ramo de informática, solitário e que vê sua mais recente relação ser dissolvida. Sherry (Julie Delpy) atira sobre a face de Don o peso da insignificância daquela relação: "Eu sinto como se fosse sua amante, Don, e você nem é casado."

Todavia, um turbilhão de emoções espreita a vida do personagem a partir da chegada de um misterioso envelope rosa. Trata-se de uma carta anônima, revelando ao apático personagem que ele havia sido progenitor de um jovem rapaz. E que esse jovem poderia a qualquer momento aparecer em seu endereço buscando conhecer o pai.

Don não sabia da existência desse filho. E com o auxílio do entusiasta Winston, seu sócio e melhor amigo, ele empreende uma jornada ao passado, visitando todas as mulheres que, porventura, poderiam ser a mãe do jovem e remetente da tal carta rosa.

Não por acaso, o filme chama-se “Flores Partidas” (Broken Flowers), pois gradativamente vamos conhecendo uma gama de mulheres com quem Don teve a oportunidade de estabelecer um vínculo definitivo em sua vida, mas em vez disso, optou por permanecer em uma vida solo. Os sentimentos que  foram partidos ganham um tom simbólico a cada reencontro, quando Don chega levando flores rosa.

Ainda assim, já envelhecido pelo tempo, Don se permite gradativamente criar alguma expectativa em torno do desejo de conhecer o próprio filho (caso este fosse realmente uma pessoa existente e não uma brincadeira de mau gosto – hipótese nunca descartada pelo protagonista).


O Homem Niilista no Cinema

O curioso desse filme é que, ao mesmo tempo que descreve com maestria o espírito do homem niilista contemporâneo – um ser desconexo com o mundo e com significado existencial em aberto – ele também deixa um alerta: uma postura muito radical avessa aos laços humanos pode importar no aumento exponencial da auto-percepção de irrelevância existencial.

Portanto, o niilista, sendo uma pessoa sóbria, como lhe é peculiar, precisa ficar atento para que eventualmente abra exceções ao mundo, permitindo-se estabelecer laços afetivos. Esses laços acabam sendo a substância que confere à existência alguma importância.

É perfeitamente possível ser niilista sem precisar incorrer em nenhum exagero. Uma vida sóbria entende que os significados existenciais são, de fato, abertos. A vida é o que fazemos dela; e não o que alguma cartilha, doutrina, ou mesmo o que a sociedade presume que seja.

Mesmo assim, sendo tão diferentes das demais pessoas, os niilistas precisam saber se preservar do abismo que os espreita. A grande crise niilista fez sombra à Europa dos séculos XIX e XX e foi tema de filósofos e literatos. Causou especial preocupação em Nietzsche e Dostoiévski. E dessa preocupação criou-se o estereótipo que hoje conhecemos.


Don Johnston: Um Niilista Gentil

Mas as pessoas que compreendem o niilismo em sua essência sabem o quanto esse estereótipo pode estar afastado da realidade cotidiana de um niilista. Em alguma medida, o filme de Jim Jarmusch serve para atenuar esse estigma. Don Johnston não é o homicida e nem o suicida como o estereótipo tenta fazer parecer.

Don é um homem muito gentil, refinado, que, por compreender a vida sob a ótica da sobriedade, termina por rejeitar os grandes fervilhares de emoção e engajamentos no que quer que seja. Ele percebe a efemeridade das coisas e a dor conexa na expectativa. Então, de forma quase reflexa, ele vai se esquivando do mundo, de seus convites, de suas seduções.

Mas essa postura, uma vez radical, não necessariamente induz a uma conduta homicida ou suicida, mas sim ao esvaziamento da alegria e da dor de se viver. Eliminam-se os altos e baixos e vive-se o médio, talvez o tédio. E disso decorre a apatia que vislumbramos no personagem.

Entretanto, como pudemos igualmente perceber, Don soube ceder ao impulso de se permitir ter um significado existencial transitório: a busca por decifrar um mistério. Seria seu filho uma realidade ou uma ficção inventada por alguém de seu passado? Quem seria a mãe desse rapaz, assumindo que ele existisse? E ainda percebemos o quanto Don vai sendo gradativamente envolvido pela expectativa de conhecer o próprio filho.

Assim é o niilista genuíno: um homem aberto. Ele não se empolga tanto quanto os outros, mas também não se fecha em absoluto para nada. Por vezes, flagra a si mesmo motivado com alguma coisa. E claro que isso o surpreende. Mas não tarda a recolher-se para dentro de si próprio, seu refúgio incontornável na vida.

Recomendo o filme “Flores Partidas” para quem gostaria de compreender um pouco mais sobre o niilismo na prática; e sobretudo, para remover do imaginário das pessoas a visão tão fortemente projetada do niilista como um ser adoecido, perigoso para os outros ou para si mesmo. No fundo, essa projeção é fruto de um medo que os dogmáticos tinham de ver um mundo sem fé. Mas ela não condiz com a realidade. E em parte, este blog tem por missão esclarecer essa injusta infâmia.

 

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