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O fenômeno Velvet Sundown

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Recentemente, uma banda chamada Velvet Sundown tornou-se o centro das atenções entre músicos e produtores ao alcançar grande sucesso no Spotify, apesar de ser — ao que tudo indica — uma banda inteiramente criada por inteligência artificial. Dediquei um bom tempo a ouvir as opiniões de músicos, arranjadores e críticos de arte que, em sua maioria, focaram em aspectos que, a meu ver, desviam-se do cerne da questão. Em geral, a principal inquietação dessas vozes é a própria sobrevivência num mercado que vem escancarando, de forma cada vez mais nítida, o quão dispensável pode ser a participação humana na criação artística — sem que isso gere resistência significativa por parte da vasta maioria do público leigo. Portanto, o alarmismo criado decorreu por uma questão ética, de materialidade, da sobrevivência, e não, por uma questão estética, da arte em si mesma. Um ou outro músico ainda teceram comentários negativos – quase todos movidos pelo ressentimmento de perceberem a arte ameaçada (e nã...

O erotismo feminino em "Os belos dias de Aranjuez" de Wim Wenders

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  Ernest Hemingway sempre aconselhou aos novos escritores começar um texto lançando uma verdade direta, contra qual não caibam contestações. E a verdade que aqui vos lanço é a seguinte: O brasileiro vem insistentemente tentando assassinar o erotismo, sobretudo o feminino. Eros vem colocando os homens dessa geração contra a parede, induzindo emoções e reações díspares. E não seria absurdo acrescentar que até mesmo as próprias mulheres brasileiras vêm sendo arrastadas por um turbilhão ideológico que se manifesta de forma repressora ao erotismo em todas as suas facetas. Talvez, a questão seja o fato de que uma imensa massa de pessoa sente-se colocada contra a parede sempre que o menor sinal de erótico desponta. E o mal estar se intensifica exponencialmente quando o que é despontado refere-se ao gênero feminino. É nesse contexto, que eu gostaria de trazer para essas linhas uma breve análise do filme “Os belos dias de Aranjuez” de Wim Wenders. Este é um diretor que vem ganhando a ...

"Flores Partidas", o niilista tal qual ele é.

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  Hoje, tive o prazer de assistir novamente ao filme de Jim Jarmusch, “Flores Partidas” . Trata-se de um drama protagonizado por Bill Murray e com a participação de Sharon Stone, Julie Delpy, Jessica Lange, entre outros. É um dos filmes que mais perfeitamente reflete a postura niilista de um homem de meia-idade , indiferente à sociedade e à vida. Contudo, apesar dessa desconexão com o mundo, ele busca estabelecer laços com a humanidade e acaba por encontrar, mesmo que transitoriamente, um significado existencial nessa busca. Bill Murray faz o papel de Don Johnston , um homem bem-sucedido no ramo de informática, solitário e que vê sua mais recente relação ser dissolvida. Sherry (Julie Delpy) atira sobre a face de Don o peso da insignificância daquela relação: "Eu sinto como se fosse sua amante, Don, e você nem é casado." Todavia, um turbilhão de emoções espreita a vida do personagem a partir da chegada de um misterioso envelope rosa. Trata-se de uma carta anônima, revela...

Nostalgia: Seria Tarkóvski o herdeiro de Dostoiévski?

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  15 de maio de 2025, meu aniversário será amanhã. Agora, enquanto escrevo, o Sol ainda não nasceu. Na televisão, deixei sutilmente ao fundo um som grave, trágico e misterioso: Gotan Project, que mescla tango e eletrônico com uma maestria singular. E embora eu não encare datas festivas com solenidade, pois para mim todas as datas são meras convenções, expressões genéricas dessa inerente necessidade humana de demarcar o tempo, costumo sentir em algumas delas, em particular, um vazio, uma nostalgia lancinante que me atira à face a avassaladora passagem do tempo. Esse vazio, cuja origem e denominação demorei muitos anos para compreender, devo à leitura. Ela me revelou o niilismo, mais especificamente em sua vertente negativa e pessimista. E sua causa reside no Devir, nessa aleatoriedade das contingências, nessa nossa intrínseca fragilidade diante da inexorável marcha do tempo, que nos esmaga em lembranças e nos devolve sob a forma de nostalgia e melancolia. Muitos buscaram disti...

Ettore Scola, o cínico contemporâneo

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  Recentemente, tive o singular privilégio de assistir ao clássico italiano de Ettore Scola, “Feios, Sujos e Malvados”, e posso atestar que se revela um filme de maior profundidade do que, talvez, a princípio se imagine. Ele alcança um efeito hilariamente desconcertante, em grande parte porque nos arremessa , sem hesitação, a um meio grotesco, onde a realidade nos é escancarada sem qualquer filtro. E por que motivo essa abordagem torna o filme tão incomum? Bem, reside no fato de que a própria experiência de assistir a filmes costuma pressupor todo um verniz civilizacional, inerente àqueles absolutamente impregnados de ideais, contornos e definições, que se desfazem abruptamente diante do cinismo cinematográfico de Scola. Há um vasto campo de reflexão filosófica a ser explorado a partir do que se depreende de “Feios, Sujos e Malvados”: do cinismo ao nominalismo; destes à visão dionisíaca do mundo, inspirada nos Vedas ; até culminar na fenomenologia e, finalmente, na compreensã...

Otelo sem fúria

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              Pensei quatrocentos milhões de vezes se começaria ou não a dividir minhas ideias e opiniões mais pessoais e íntimas a respeito da vida, da arte, da filosofia e da literatura. Ao final de tantas idas e vindas, papéis rabiscados que foram parar no lixo e documentos digitais deletados, eis que acabei sucumbindo a esse ímpeto inexplicável de dividir o que penso com um público ainda em formação, que, confesso, não sei se me inspira a maior estima. Preciso advertir que o tom ácido desse veículo será uma constante. Não é mero acaso que esse blog leva "limão" no nome.  Mas, o que me pergunto é: de onde, afinal, brota esse desejo irracional de compartilhar minhas reflexões com um mundo que não me inspira grandes considerações? Sei lá. Certamente, mais uma das minhas muitas loucuras. Como escreveu o poeta Caetano: "De perto, ninguém é normal." E se é pra começar a descascar a banana em cima do mundo, nada melhor do que iniciar evidenc...