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Por uma estética expansiva: Contra a Arte como Trincheira.

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  Para os otimistas, a Arte salvará o mundo, tal qual postulou o príncipe Michkin na obra de Dostoiévski. Para os pessimistas, ela é o único consolo, como concluiu o filósofo Arthur Schopenhauer. De um jeito ou de outro, há algo urgente a ser trabalhado em nossos jovens, pois as aulas de Arte da educação formal parecem não dar conta da tarefa. Um dos efeitos mais fantásticos da genuína apreciação estética é o despojamento da própria identidade em favor da curiosidade pelo diferente, pelo novo e pelo "outro". A Arte é uma poderosíssima ferramenta de compreensão; uma máquina de teletransporte nas dimensões de tempo e espaço. O papel do apreciador é oposto ao do artista: para ver a obra em toda sua riqueza, precisamos abrir mão de fixar o olhar para dentro de si mesmo. Todavia, cresce o número de pessoas que tentam lidar com a dimensão estética sem saber como. Apegam-se à própria identidade e arrastam para dentro do que deveria ser uma apreciação seus juízos morais, anseios ...

A Burguesia que Parou de Feder: O Banquete dos Nobres e o Revanchismo da Plebe

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Foram pouco menos de trinta anos para que a sociedade brasileira mudasse da estação “a burguesia fede” para sintonizar em “Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha... só no filé”. De Cazuza a Seu Jorge, nesse tempo, não nos demos conta da abrupta mudança de mentalidade. A Perestroika e a Glasnost refizeram Rússia e China. E aquilo que chamam “Janela de Overton” parece ter se deslocado consideravelmente. Não contra a esquerda orgânica e seus ideais igualitaristas, mas contra o Estado, a centralização, o partidarismo e o planejamento central como métodos. A busca por igualdade em nossos tempos se tornou a busca em fazer de todos, igualmente, ‘microempreendedores de si mesmos’. E qualquer coisa para além disso se tornou ‘privilégio’. Correto ou equivocado, ao menos é esse o sentimento que se alastra. Na minha perspectiva pessoal, a maior parte daquilo que consideramos privilégio ostentado no Brasil vem sendo produto da lei e da política, e bem menos das relações de ...

Para muito além do feminismo.

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  Lá vou eu, pela manhã, e insisto em acessar as redes sociais na esperança de trazer leveza e alegria para a minha vida. Porém, essa expectativa quase sempre acaba sendo interrompida por alguma postagem miseravelmente ofensiva às mulheres, em especial à sua mais recente conquista: o livre exercício do desejo e do afeto. Preciso confessar que fico estarrecido ao constatar que, em pleno século XXI, o livre desejo feminino ainda desperta profundo desconforto em diversos estratos da sociedade brasileira, afetando pessoas de todos os gêneros e ideologias. As motivações para essa resistência são variadas: originam-se tanto em preconceitos enraizados no dogma da 'mãe casta' — personificado em figuras bíblicas como Maria — quanto no ressentimento masculino diante da perda de poder e espaço nos relacionamentos intergêneros, antes sustentados pela dependência financeira e/ou pelo constrangimento moral. Nesse cenário, observa-se também uma espécie de ‘puritanismo’ travestido de rigor...

Nossa 'democracia' de Toga

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  Para aqueles que ainda ontem clamavam pela volta da ditadura militar e os outros que se empenham diariamente em remar na direção do experimento soviético, não vejo em que a 'ditadura de toga' que se implementou no Brasil possa trazer qualquer decepção. Não era ditadura que vocês unanimemente queriam? Convenhamos, o Brasil não é um país vocacionado para uma real democracia. O máximo que nossa sociedade tosca e radical comporta é essa democracia nominativa, meia-boca... e olhe lá, hein? Se nem sequer o mero espírito republicano conseguimos imprimir sobre nossos espíritos, quiçá a nobreza, a disposição ao contraditório, a clareza de pensamento, a retidão de conduta, a abnegação altruísta e a consciência cívica e histórica — valores  sine qua non  de qualquer democracia que possamos esperar. Eu gosto de metáforas esportivas. Elas tornam as coisas mais claras. Imagine você, leitor, uma partida de futebol em que, dos vinte e dois jogadores em campo, dezenove sejam profundamen...

O fenômeno Velvet Sundown

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Recentemente, uma banda chamada Velvet Sundown tornou-se o centro das atenções entre músicos e produtores ao alcançar grande sucesso no Spotify, apesar de ser — ao que tudo indica — uma banda inteiramente criada por inteligência artificial. Dediquei um bom tempo a ouvir as opiniões de músicos, arranjadores e críticos de arte que, em sua maioria, focaram em aspectos que, a meu ver, desviam-se do cerne da questão. Em geral, a principal inquietação dessas vozes é a própria sobrevivência num mercado que vem escancarando, de forma cada vez mais nítida, o quão dispensável pode ser a participação humana na criação artística — sem que isso gere resistência significativa por parte da vasta maioria do público leigo. Portanto, o alarmismo criado decorreu por uma questão ética, de materialidade, da sobrevivência, e não, por uma questão estética, da arte em si mesma. Um ou outro músico ainda teceram comentários negativos – quase todos movidos pelo ressentimmento de perceberem a arte ameaçada (e nã...