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Será o meu cinismo diferente do cinismo do mundo?

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  Esses dias me deparei com uma curiosa imagem publicada num grupo de humor do Facebook. Como tem acontecido muito ultimamente, a minha hilaridade dura relativamente pouco. Foi engraçado, reconheço. Não obstante, logo depois, veio uma triste e melancólica constatação: o meu divórcio com a humanidade parece cada vez mais irreversível. A perplexidade diante da imagem posta, me fez lembrar dos apelos de Ortega y Gasset em defesa do idealismo de Dom Quixote, na obra “Meditações do Quixote”. O filósofo espanhol adota uma postura crítica à tendência contemporânea ao empirismo radical e ao cinismo, já verificados na obra de Cervantes, e figurado na personagem de Sancho Pança.  Mas, talvez o mais intrigante que podemos refletir sobre o humor cínico supracitado fosse o que do outro lado, até mesmo um cínico e empirista radical como Nietzsche,  muito possivelmente, sentisse a respeito da quebra da idealização da beleza sugerida na imagem. Penso que ele ficaria tão estarrecido q...

Dickens em camadas

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  Estou tendo o prazer de reler "As aventuras do Sr. Pickwick" de Charles Dickens, e eis que me surgiram várias observações e teses. Não me contive em fazer consultas ao Gemini (Inteligência Artificial do Google) com o propósito de destrinchar um pouco mais desse ilustre autor. O texto que se segue é a cópia dessa entrevista com o Gemini a respeito de Dickens e um breve trecho dessa pitoresca obra.    Minha pergunta: Não seria Charles Dickens um precursor da ideia tão difundida no modernismo de um narrador não confiável? Digo isso baseado na leitura de "as aventuras do sr. Pickwick".   Resposta do Gemini: Embora o narrador não confiável ( unreliable narrator ) seja frequentemente associado ao Modernismo (com Henry James, Nabokov ou Machado de Assis), as raízes de Dickens em As Aventuras do Sr. Pickwick ( The Pickwick Papers ) mostram que ele já estava brincando com as camadas de "verdade" da narrativa muito antes. No caso específico de Dickens e do Sr. Pi...

A ficção do dia!

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 — Veja! Até que enfim nossa filha chegou. — Oi, papai. Oi, mamãe. Eu trouxe meu namorado. Queria apresentá-lo. A expressão de surpresa tomou o velho. Ele buscou os óculos na escrivaninha, levantou-se e foi em direção aos jovens. — Que satisfação finalmente conhecer o pretendente da minha filha! — A satisfação é toda minha, senhor. — Como se chama? — Eric. — Prazer, Eric. Sentem-se! Vamos finalmente poder conversar. — Papai, é que estamos um pouco com pressa. — Que pressa é essa? Esta é a grande oportunidade de finalmente nos conhecermos. Os jovens se entreolharam. — Então, Eric? O que você faz da vida? — Papai! Não é hora disso. — Deixe seu pai falar, minha filha! Ele sabe o que está fazendo. O jovem coçou a cabeça e, meio tímido, respondeu: — Bem, senhor, eu sou músico. Toco guitarra. Pai e mãe se entreolharam e riram. — Sim, claro, meu filho. Eu aprecio muito o seu hobby. Tenho aqui o disco do Chet Atkins; outro do Les Paul. Mas o que estou perguntando é: como você ganha a vida?...

Por uma estética expansiva: Contra a Arte como Trincheira.

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  Para os otimistas, a Arte salvará o mundo, tal qual postulou o príncipe Michkin na obra de Dostoiévski. Para os pessimistas, ela é o único consolo, como concluiu o filósofo Arthur Schopenhauer. De um jeito ou de outro, há algo urgente a ser trabalhado em nossos jovens, pois as aulas de Arte da educação formal parecem não dar conta da tarefa. Um dos efeitos mais fantásticos da genuína apreciação estética é o despojamento da própria identidade em favor da curiosidade pelo diferente, pelo novo e pelo "outro". A Arte é uma poderosíssima ferramenta de compreensão; uma máquina de teletransporte nas dimensões de tempo e espaço. O papel do apreciador é oposto ao do artista: para ver a obra em toda sua riqueza, precisamos abrir mão de fixar o olhar para dentro de si mesmo. Todavia, cresce o número de pessoas que tentam lidar com a dimensão estética sem saber como. Apegam-se à própria identidade e arrastam para dentro do que deveria ser uma apreciação seus juízos morais, anseios ...