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Dickens em camadas

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  Estou tendo o prazer de reler "As aventuras do Sr. Pickwick" de Charles Dickens, e eis que me surgiram várias observações e teses. Não me contive em fazer consultas ao Gemini (Inteligência Artificial do Google) com o propósito de destrinchar um pouco mais desse ilustre autor. O texto que se segue é a cópia dessa entrevista com o Gemini a respeito de Dickens e um breve trecho dessa pitoresca obra.    Minha pergunta: Não seria Charles Dickens um precursor da ideia tão difundida no modernismo de um narrador não confiável? Digo isso baseado na leitura de "as aventuras do sr. Pickwick".   Resposta do Gemini: Embora o narrador não confiável ( unreliable narrator ) seja frequentemente associado ao Modernismo (com Henry James, Nabokov ou Machado de Assis), as raízes de Dickens em As Aventuras do Sr. Pickwick ( The Pickwick Papers ) mostram que ele já estava brincando com as camadas de "verdade" da narrativa muito antes. No caso específico de Dickens e do Sr. Pi...

A ficção do dia!

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 — Veja! Até que enfim nossa filha chegou. — Oi, papai. Oi, mamãe. Eu trouxe meu namorado. Queria apresentá-lo. A expressão de surpresa tomou o velho. Ele buscou os óculos na escrivaninha, levantou-se e foi em direção aos jovens. — Que satisfação finalmente conhecer o pretendente da minha filha! — A satisfação é toda minha, senhor. — Como se chama? — Eric. — Prazer, Eric. Sentem-se! Vamos finalmente poder conversar. — Papai, é que estamos um pouco com pressa. — Que pressa é essa? Esta é a grande oportunidade de finalmente nos conhecermos. Os jovens se entreolharam. — Então, Eric? O que você faz da vida? — Papai! Não é hora disso. — Deixe seu pai falar, minha filha! Ele sabe o que está fazendo. O jovem coçou a cabeça e, meio tímido, respondeu: — Bem, senhor, eu sou músico. Toco guitarra. Pai e mãe se entreolharam e riram. — Sim, claro, meu filho. Eu aprecio muito o seu hobby. Tenho aqui o disco do Chet Atkins; outro do Les Paul. Mas o que estou perguntando é: como você ganha a vida?...

Por uma estética expansiva: Contra a Arte como Trincheira.

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  Para os otimistas, a Arte salvará o mundo, tal qual postulou o príncipe Michkin na obra de Dostoiévski. Para os pessimistas, ela é o único consolo, como concluiu o filósofo Arthur Schopenhauer. De um jeito ou de outro, há algo urgente a ser trabalhado em nossos jovens, pois as aulas de Arte da educação formal parecem não dar conta da tarefa. Um dos efeitos mais fantásticos da genuína apreciação estética é o despojamento da própria identidade em favor da curiosidade pelo diferente, pelo novo e pelo "outro". A Arte é uma poderosíssima ferramenta de compreensão; uma máquina de teletransporte nas dimensões de tempo e espaço. O papel do apreciador é oposto ao do artista: para ver a obra em toda sua riqueza, precisamos abrir mão de fixar o olhar para dentro de si mesmo. Todavia, cresce o número de pessoas que tentam lidar com a dimensão estética sem saber como. Apegam-se à própria identidade e arrastam para dentro do que deveria ser uma apreciação seus juízos morais, anseios ...

A Burguesia que Parou de Feder: O Banquete dos Nobres e o Revanchismo da Plebe

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Foram pouco menos de trinta anos para que a sociedade brasileira mudasse da estação “a burguesia fede” para sintonizar em “Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha... só no filé”. De Cazuza a Seu Jorge, nesse tempo, não nos demos conta da abrupta mudança de mentalidade. A Perestroika e a Glasnost refizeram Rússia e China. E aquilo que chamam “Janela de Overton” parece ter se deslocado consideravelmente. Não contra a esquerda orgânica e seus ideais igualitaristas, mas contra o Estado, a centralização, o partidarismo e o planejamento central como métodos. A busca por igualdade em nossos tempos se tornou a busca em fazer de todos, igualmente, ‘microempreendedores de si mesmos’. E qualquer coisa para além disso se tornou ‘privilégio’. Correto ou equivocado, ao menos é esse o sentimento que se alastra. Na minha perspectiva pessoal, a maior parte daquilo que consideramos privilégio ostentado no Brasil vem sendo produto da lei e da política, e bem menos das relações de ...

Para muito além do feminismo.

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  Lá vou eu, pela manhã, e insisto em acessar as redes sociais na esperança de trazer leveza e alegria para a minha vida. Porém, essa expectativa quase sempre acaba sendo interrompida por alguma postagem miseravelmente ofensiva às mulheres, em especial à sua mais recente conquista: o livre exercício do desejo e do afeto. Preciso confessar que fico estarrecido ao constatar que, em pleno século XXI, o livre desejo feminino ainda desperta profundo desconforto em diversos estratos da sociedade brasileira, afetando pessoas de todos os gêneros e ideologias. As motivações para essa resistência são variadas: originam-se tanto em preconceitos enraizados no dogma da 'mãe casta' — personificado em figuras bíblicas como Maria — quanto no ressentimento masculino diante da perda de poder e espaço nos relacionamentos intergêneros, antes sustentados pela dependência financeira e/ou pelo constrangimento moral. Nesse cenário, observa-se também uma espécie de ‘puritanismo’ travestido de rigor...