Por uma estética expansiva: Contra a Arte como Trincheira.
Para os otimistas, a Arte salvará o mundo, tal qual postulou o príncipe Michkin na obra de Dostoiévski. Para os pessimistas, ela é o único consolo, como concluiu o filósofo Arthur Schopenhauer. De um jeito ou de outro, há algo urgente a ser trabalhado em nossos jovens, pois as aulas de Arte da educação formal parecem não dar conta da tarefa.
Um dos
efeitos mais fantásticos da genuína apreciação estética é o despojamento da
própria identidade em favor da curiosidade pelo diferente, pelo novo e pelo
"outro". A Arte é uma poderosíssima ferramenta de compreensão; uma
máquina de teletransporte nas dimensões de tempo e espaço. O papel do
apreciador é oposto ao do artista: para ver a obra em toda sua riqueza,
precisamos abrir mão de fixar o olhar para dentro de si mesmo.
Todavia,
cresce o número de pessoas que tentam lidar com a dimensão estética sem saber
como. Apegam-se à própria identidade e arrastam para dentro do que deveria ser
uma apreciação seus juízos morais, anseios políticos, religiosos ou nichos
sociológicos. O resultado é catastrófico: uma tribalização generalizada que
transforma a contemplação em campo de batalha. Em vez de libertação, a Arte se
converte em trincheira ideológica ou identitária.
O aspecto
biográfico do artista ganha relevância em detrimento da obra. Criam-se ritos
baseados em datas e se endeusam figuras como santos inatacáveis. Ritos, mitos e
juízos morais substituem gradativamente a busca pelo deleite, pelo sublime e
pela catarse. Enfim, um barbarismo artístico que mereceria tratamento nos divãs
sociais.
Contrário a
tudo isso, para o genuíno apreciador, não existem fronteiras. Ele despreza
dados biográficos que reduzam o alcance da obra — seja raça, cultura, época ou
mesmo o caráter pessoal do artista. A arte é para ser sentida e refletida. E,
se desse debruçar nascerem críticas, que sejam baseadas na obra em si, não em
circunstâncias anexas. Superestimar uma obra por razões externas é tão ofensivo
quanto desmerecê-la injustamente. É como supervalorizar um jogador de futebol
não pelo talento, mas por ser atraente — algo que se fez por anos com o Kaká,
por exemplo.
As Barreiras
da Apreciação
As práticas
que limitam nossa capacidade de expansão estética podem ser divididas em três
grandes blocos:
A) Convicções e Crenças Limitantes Ocorre
quando a religião ou a ideologia limitam o alcance da obra. Há quem desmereça
Kafka, Camus ou músicas de matriz africana (como as que exaltam Ogum, Iansã)
por desafiarem sua fé; sem se dar conta que a exaltação a essas entidades é
muito mais uma afirmação de raiz cultural do que religiosa. Também há quem
superestime obras como A Divina
Comédia ou O Paraíso Perdido
apenas por reforçarem um sistema de crenças, e não por sua grandeza intrínseca.
No campo ideológico, vemos conservadores abominando Chico Buarque e Caetano
Veloso, enquanto progressistas guardam ressentimento contra o Country norte-americano. É um
desperdício de talento para todos os lados. Superestimar Maiakóvski em
detrimento de Brodsky (o "desajustado") lembra a superestima de
Virgílio sobre Ovídio. No campo moral, a "modinha" atual de exaltar
Dostoiévski para subestimar Nabokov é o exemplo perfeito desse mal-estar. Enaltecer exageradamente e de forma fixa a Arte "engajada" vem sendo outra estratégia que enfraquece a qualidade contemplativa da apreciação estética. Lembremos que a supervalorização de filmes que se posicionam ideolgicamente, fazendo desse valor uma fixação - um bandeira, um fetiche - é tão superficial quanto o seu oposto: a perseguição e reação criada pelo outro setor da sociedade civil. A guerra se estabelece e a Arte fica a reboque.
B) Identidade e Pertencimento A luta estética contra o que vem
de fora. No Brasil "viralatista", alguns só apreciam o que é
estrangeiro, desprezando nossas raízes indígenas e africanas. Por outro lado,
há o regionalismo que despreza o universal. Há também a resistência entre
estratos sociais: o pobre que abomina a arte da classe média e vice-versa. Já
fui impedido de executar uma canção de Bossa Nova em um churrasco de subúrbio,
tanto quanto fui impedido de ouvir Funk em uma reunião de classe média.
Aqui, há uma
barreira estruturada: a ideia de "alta cultura" precisa ser melhor
compreendida. Ela não é mais rica esteticamente, muito menos superior; apenas
aponta os elementos de um nicho que impactaram mais profundamente a organização
social — um critério que foge ao aspecto estético. Que interessa, para quem ama
a Arte, que uma orquestra sinfônica exija anos de estudo se o batuque do samba
corre nas veias do moleque de rua? A simplicidade do segundo pode ter um
impacto estético ainda mais lírico, comovente e genuíno. A Arte muito estudada
tende a ser fria. Não devemos permitir que a barreira da instrução se converta
em uma jaula para a sensibilidade.
O preconceito
dos estratos menos cultos é compreensível; o dos mais instruídos é imperdoável,
pois o estudo deveria, ao menos em tese, abrir portas, não fechá-las. Por outro
lado, o que diferencia "Arte" de "Cultura" reside na tensão
que o artista exerce contra a sua própria cultura para afirmar sua
individualidade. Ficar restrito ao endógeno é uma apreciação meramente
cultural, longe da complexidade universal da Arte. Precisamos exercitar sobre
nossos entrincheirados uma expansão para fora de si.
C) Foco no Artista e não na Obra Elege-se o "bode expiatório
da vez" e cancela-se a obra por uma fala indevida ou passado sombrio.
Engana-se quem pensa que o cancelamento se move apenas no presente. Não faltam
anacronismos, como tratar Monteiro Lobato ou Noel Rosa como
"racistas" ideológicos, em vez de pertencentes a um tempo em que o
racismo era hegemônico. Em Hollywood, essa "caça às bruxas" ilude
quem acredita estar envolvido em Arte quando, na verdade, adere a uma visão anti-estética
e beligerante. Nos últimos anos, Woody Allen, Roman Polanski e Quentin
Tarantino tornaram-se alvos. Ora, se a conduta biográfica do artista impactasse
a apreciação estética, deveríamos deixar de gostar das obras de Picasso. Se
para produzir arte precisássemos de santos, seria melhor desistirmos da Arte,
pois nenhuma biografia está imune a receber pedras.
Por fim, o preconceito estético é o prelúdio do preconceito ético. Hostilizar uma identidade artística é, no íntimo, desumanizar o grupo que a produz. A Arte, muito mais que a religião ou a política, é o exercício de buscar a beleza do outro. Só derrubaremos as barreiras que impedem o amor ao próximo através da experiência estética genuína. Parem de fazer guerra! Façam arte! E, sobretudo, saibam apreciá-la!

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