A Burguesia que Parou de Feder: O Banquete dos Nobres e o Revanchismo da Plebe
Foram pouco menos de trinta anos para que a sociedade brasileira
mudasse da estação “a burguesia fede” para sintonizar em “Burguesinha,
burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha... só no filé”. De Cazuza a
Seu Jorge, nesse tempo, não nos demos conta da abrupta mudança de mentalidade.
A Perestroika e a Glasnost refizeram Rússia e China. E aquilo que
chamam “Janela de Overton” parece ter se deslocado consideravelmente. Não
contra a esquerda orgânica e seus ideais igualitaristas, mas contra o Estado, a
centralização, o partidarismo e o planejamento central como métodos. A busca
por igualdade em nossos tempos se tornou a busca em fazer de todos, igualmente,
‘microempreendedores de si mesmos’. E qualquer coisa para além disso se tornou ‘privilégio’.
Correto ou equivocado, ao menos é esse o sentimento que se alastra.
Na
minha perspectiva pessoal, a maior parte daquilo que consideramos privilégio
ostentado no Brasil vem sendo produto da lei e da política, e bem menos das
relações de mercado. É claro que, por outro lado, compreendemos que muito do
lobismo político guarda suas origens na mais alta cúpula financeira do país.
Mas o 1% mais rico incomoda muito menos a percepção cotidiana do brasileiro do
que o privilégio de ter estabilidade funcional, regime próprio de previdência,
plano de saúde e um salário minimamente adequado à sobrevivência. Para quem não
tem nada disso e ainda enfrenta as filas e a ineficiência dos serviços públicos
no Brasil, o funcionalismo encampa e personifica a classe privilegiada por
excelência. Eu sei o quanto tudo isso pode soar ofensivo para quem vislumbra as
elites financeiras como as únicas ‘privilegiadas”.
Além
disso, o alto funcionalismo — incluído aí juízes, membros de tribunais
superiores, classe política, etc. — espezinha a sociedade quando decreta
aumentos de remuneração diferenciados, além, é claro, de todos os
penduricalhos, aposentadorias com faixas etárias diferenciadas, férias de três
meses para parlamentares, entre outras vantagens que são realmente difíceis de
engolir.
Observando
com cuidado quem era Cazuza e quem é Seu Jorge, podemos perceber com clareza o
que pensa cada estrato social brasileiro. Parece que só pensa em igualdade quem
é rico ou de classe média no Brasil — aqueles que tiveram uma boa educação
formal, conheceram os melindres da riqueza e o vazio do bem-estar, e jamais
foram sujeitados às humilhações da pobreza.
Enquanto
isso, o pobre, sem educação formal de qualidade, é movido por impulsos que
variam da superação da pobreza até a ostentação e a revanche. “Os humilhados
serão exaltados”, aplicado a uma era materialista, parece redundar em
consumismo e ostentação. O pobre não parece querer igualdade. Para muitos, o
empreendedorismo é a oportunidade única de virar o jogo e finamente ser rico. É
claro que nem todos, mas a parcela mais materialista da pobreza, certamente
pensa assim. E isso se verifica em qualquer funk ostentação, clipe de Bruno
Mars, refrão de pagode ou sertanejo universitário.
O paradoxo das esquerdas no Brasil consiste exatamente nessa
estranha circunstância em que, quanto mais elas efetivam a conquista de dar vez
ao pobre e incluí-lo, mais junto ao pobre emerge a mentalidade que as esquerdas
mais combatem: o machismo, o dogmatismo, a homofobia e, sobretudo, a feição a
um liberalismo selvagem e revanchista, afeito à ostentação de cunho material.
Eu sei que as esquerdas — como qualquer outro espectro ideológico
— não gostam de seu próprio raio X, nem de se ver no espelho. Mas há algo de
que especialmente as esquerdas brasileiras não gostam e que tenho feito aqui:
fazer uma descrição neutra, quase científica, da realidade social.
A partir dessa minha análise, a oportunidade se abre para a
revisão de suas próprias estratégias. E, para as esquerdas, só existem duas
estratégias necessárias: moralização institucional — que aproxime a figura
pública cada vez mais das condições médias do brasileiro fora das instituições
(acabar com os privilégios do funcionalismo de elite; isso dói na esquerda
porque parte da sua base histórica e sindical está justamente no funcionalismo
público) — e a segunda estratégia: educação pública fundamental e básica de
qualidade. Focar na base, e não apenas no ensino superior (onde a elite
intelectual se reproduz).
Sem essas estratégias, as esquerdas brasileiras continuarão se
assemelhando demais à nobreza do Antigo Regime europeu, que, nos séculos XVI,
XVII e XVIII, fazia questão de desconhecer a sociedade em que estava inserida
enquanto tomava os melhores vinhos e frequentava as melhores festas. O preço
dessa negligência, naquele caso, foi a queda da Bastilha. No Brasil, pode ser
um golpe ou mesmo a eleição do extremo oposto.
O discurso da igualdade social emanado por essa elite socialista
que "arrota champanhe" muito se assemelha, aos ouvidos do
contribuinte pobre e da classe média baixa, ao lendário dizer “Se não têm pão,
que comam brioches”, supostamente dito por Maria Antonieta, rainha da França
pré-revolucionária.
A política de focar investimentos na educação superior, sendo permeável à inclusão social apenas de forma muito filtrada e seletiva, mediante cotas, é, na minha perspectiva, uma franca traição aos ideais de busca por equidade social. Essa política cristaliza ainda mais a ideia de hierarquia e estratificação social, oferecendo apenas um paliativo honroso ao conceder a pouquíssimos elementos a benesse da suposta inclusão, propagandeando-a como faria qualquer loteria ou jogo do bicho sobre seus laureados.
Sem educação, não se pode esperar outra atitude da plebe senão
ceder ao impulso vital e à própria mentalidade materialista de querer subir nas
costas de seus semelhantes a fim de usufruir de tudo o que lhe foi negado até
então.
A educação cristã do passado — e veja que tenho inúmeras ressalvas
e críticas a ela — ao menos sabia ser mais estratégica do que a educação de
cunho progressista. Ela compreendeu que não haveria harmonia social sem algum
nível de despojamento. O materialismo de socialistas e liberais partilha a
ideia de que dignidade e felicidade advêm da matéria.
Ora, diante dessa premissa, convenhamos que não é nada simples
aprender a dizer a si mesmo: "chega de matéria para mim". Atingir o
patamar de “dignidade” sem pretender aproveitar a oportunidade para descambar
no consumismo é um exercício quase sem fundamento para o emergente social. Se a
única régua é o ter, quem não tem quer ter tudo, e quem tem não quer abrir mão
de nada.
Enquanto textos como esse repelirem intelectuais progressistas
que, em tempos de polarização, se tornaram sensíveis o suficiente para achar
que qualquer crítica só pode advir de um espírito destruidor de suas ideias,
nada se alterará no curso das administrações e das instituições.
E isso é lamentável, pois, a bem da verdade, o “Burguesinha, só no
filé” é coisa do passado. Nos dias de hoje, já chegamos ao “Ninguém vai atrasar
quem nasceu pra vencer” e “É Deus que aponta a estrela que tem que brilhar” como
bem desenvolveu Xande de Pilares. Esse é o resultado da inclusão sem educação,
negada por décadas de gestão progressista. A elite intelectual brasileira não
apenas falhou na estratégia, mas criou o ambiente perfeito para o seu próprio
oposto.
Por fim, prevejo que este texto será lido por muitos como um
"ataque de direita", quando, na verdade, ele se apresenta como uma
autópsia política cínica e pragmática. O ofendido raramente distingue o médico
do assassino quando a notícia é a morte de uma ilusão.



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