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Mostrando postagens de maio, 2025

"Flores Partidas", o niilista tal qual ele é.

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  Hoje, tive o prazer de assistir novamente ao filme de Jim Jarmusch, “Flores Partidas” . Trata-se de um drama protagonizado por Bill Murray e com a participação de Sharon Stone, Julie Delpy, Jessica Lange, entre outros. É um dos filmes que mais perfeitamente reflete a postura niilista de um homem de meia-idade , indiferente à sociedade e à vida. Contudo, apesar dessa desconexão com o mundo, ele busca estabelecer laços com a humanidade e acaba por encontrar, mesmo que transitoriamente, um significado existencial nessa busca. Bill Murray faz o papel de Don Johnston , um homem bem-sucedido no ramo de informática, solitário e que vê sua mais recente relação ser dissolvida. Sherry (Julie Delpy) atira sobre a face de Don o peso da insignificância daquela relação: "Eu sinto como se fosse sua amante, Don, e você nem é casado." Todavia, um turbilhão de emoções espreita a vida do personagem a partir da chegada de um misterioso envelope rosa. Trata-se de uma carta anônima, revela...

Nostalgia: Seria Tarkóvski o herdeiro de Dostoiévski?

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  15 de maio de 2025, meu aniversário será amanhã. Agora, enquanto escrevo, o Sol ainda não nasceu. Na televisão, deixei sutilmente ao fundo um som grave, trágico e misterioso: Gotan Project, que mescla tango e eletrônico com uma maestria singular. E embora eu não encare datas festivas com solenidade, pois para mim todas as datas são meras convenções, expressões genéricas dessa inerente necessidade humana de demarcar o tempo, costumo sentir em algumas delas, em particular, um vazio, uma nostalgia lancinante que me atira à face a avassaladora passagem do tempo. Esse vazio, cuja origem e denominação demorei muitos anos para compreender, devo à leitura. Ela me revelou o niilismo, mais especificamente em sua vertente negativa e pessimista. E sua causa reside no Devir, nessa aleatoriedade das contingências, nessa nossa intrínseca fragilidade diante da inexorável marcha do tempo, que nos esmaga em lembranças e nos devolve sob a forma de nostalgia e melancolia. Muitos buscaram disti...

Ettore Scola, o cínico contemporâneo

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  Recentemente, tive o singular privilégio de assistir ao clássico italiano de Ettore Scola, “Feios, Sujos e Malvados”, e posso atestar que se revela um filme de maior profundidade do que, talvez, a princípio se imagine. Ele alcança um efeito hilariamente desconcertante, em grande parte porque nos arremessa , sem hesitação, a um meio grotesco, onde a realidade nos é escancarada sem qualquer filtro. E por que motivo essa abordagem torna o filme tão incomum? Bem, reside no fato de que a própria experiência de assistir a filmes costuma pressupor todo um verniz civilizacional, inerente àqueles absolutamente impregnados de ideais, contornos e definições, que se desfazem abruptamente diante do cinismo cinematográfico de Scola. Há um vasto campo de reflexão filosófica a ser explorado a partir do que se depreende de “Feios, Sujos e Malvados”: do cinismo ao nominalismo; destes à visão dionisíaca do mundo, inspirada nos Vedas ; até culminar na fenomenologia e, finalmente, na compreensã...

Otelo sem fúria

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              Pensei quatrocentos milhões de vezes se começaria ou não a dividir minhas ideias e opiniões mais pessoais e íntimas a respeito da vida, da arte, da filosofia e da literatura. Ao final de tantas idas e vindas, papéis rabiscados que foram parar no lixo e documentos digitais deletados, eis que acabei sucumbindo a esse ímpeto inexplicável de dividir o que penso com um público ainda em formação, que, confesso, não sei se me inspira a maior estima. Preciso advertir que o tom ácido desse veículo será uma constante. Não é mero acaso que esse blog leva "limão" no nome.  Mas, o que me pergunto é: de onde, afinal, brota esse desejo irracional de compartilhar minhas reflexões com um mundo que não me inspira grandes considerações? Sei lá. Certamente, mais uma das minhas muitas loucuras. Como escreveu o poeta Caetano: "De perto, ninguém é normal." E se é pra começar a descascar a banana em cima do mundo, nada melhor do que iniciar evidenc...