Nostalgia: Seria Tarkóvski o herdeiro de Dostoiévski?

 


15 de maio de 2025, meu aniversário será amanhã. Agora, enquanto escrevo, o Sol ainda não nasceu. Na televisão, deixei sutilmente ao fundo um som grave, trágico e misterioso: Gotan Project, que mescla tango e eletrônico com uma maestria singular. E embora eu não encare datas festivas com solenidade, pois para mim todas as datas são meras convenções, expressões genéricas dessa inerente necessidade humana de demarcar o tempo, costumo sentir em algumas delas, em particular, um vazio, uma nostalgia lancinante que me atira à face a avassaladora passagem do tempo.

Esse vazio, cuja origem e denominação demorei muitos anos para compreender, devo à leitura. Ela me revelou o niilismo, mais especificamente em sua vertente negativa e pessimista. E sua causa reside no Devir, nessa aleatoriedade das contingências, nessa nossa intrínseca fragilidade diante da inexorável marcha do tempo, que nos esmaga em lembranças e nos devolve sob a forma de nostalgia e melancolia.

Muitos buscaram distintas formas de evitar esse confronto com o tempo. Nietzsche, por exemplo, encontrou refúgio na Arte e no Erotismo. Contudo, a maneira peculiar de tentar escapar desse horrendo monstro chamado Tempo que pretendo abordar nesta reflexão é outra. Falarei especialmente da obra de Andrei Tarkovski, o célebre diretor do cinema russo.

A tese que ousarei levantar aqui expressa certamente uma leviandade de minha parte, pois considero precipitado tecer ilações tão profundas a respeito de obras que conheço apenas parcialmente. É prematuro estabelecer essa comparação entre o cinema de Tarkovski e a literatura de Dostoiévski, principalmente devido à vasta extensão que ainda desconheço de suas respectivas obras. Partes fundamentais ainda me faltam, como o filme “Solaris” e o livro “Esculpir o Tempo” de Tarkovski; além dos livros “Os Irmãos Karamázov” e “Memórias do Subsolo” de Dostoiévski. Mesmo assim, ousarei pronunciá-la. A meu ver, talvez Andrei Tarkovski seja na cinematografia o herdeiro direto do modo niilista com que Dostoiévski descreve a vida.

Posso me arrepender no futuro do que acabo de postular. Mesmo assim o faço, porque sinto que assistir o cinema de Tarkovski de uma forma oblíqua acrescentou profundidade à minha compreensão da obra de Dostoiévski, mesmo que, até onde eu tenha assistido, não haja qualquer menção ao clássico escritor.

Tratar Dostoiévski como um “niilista” é uma perspectiva relativamente nova para mim, e posso dizer que foi um insight que emergiu da confluência da obra de Tarkovski com a leitura de Nietzsche. Sempre percebi o quanto Dostoiévski e Nietzsche partiam de extremos opostos para convergir a uma mesma preocupação. A peça que faltava na compreensão desse quebra-cabeça surgiu quando assisti ao filme “Nostalgia” de Andrei Tarkovski.

Posso atestar que foi um dos mais duros e difíceis filmes que já assisti na vida. Ele atirou todo o meu vazio de volta, como um espelho implacável. E pude compreender não apenas a fragilidade humana, mas a dor lancinante de Tarkovski e de Dostoiévski.

Não se trata de um cristianismo que fala a partir de dentro, proselitista e convicto, mas de uma fé que precisa se pronunciar porque agoniza, que não deseja desaparecer, mas que, defrontada com a própria razão e lucidez, percebe-se próxima do fim. Assim ocorreu com toda uma geração na Europa. É um niilismo que apela à fé apenas como defesa do arcabouço ético, que defende a fé pela razão (sua cruel opositora). Enfim, um cristianismo de quem já não acredita, mas que não consegue manter-se vivo sem a crença. Apocaliptico, pois a vida moderna torna a fé incompatível e com isso se torna insuportável pelo defrontar-se com as mazelas do tempo.

“Na ausência de Deus, tudo é permitido?” Essa é uma pergunta ética que expõe as vísceras iluministas de um pensamento nostálgico. Se a pergunta partisse de dentro da fé, não seria esta. Talvez fosse: “Na ausência de Deus, a vida seria suportável?” E a resposta a essa terrível pergunta emana do cinema de Tarkovski, especialmente no filme “Nostalgia”.

Vejo o niilismo cristão de Tarkovski e Dostoiévski em relação ao cristianismo da mesma forma com que Nietzsche enxerga o papel de Eurípides para a tragédia clássica grega: o traço sintomático do fim de uma Era, marcada por uma obra que lamenta a decadência daquilo que pretensamente defende, ao mesmo tempo que é veículo dessa decadência:

“Quando o poeta se retratou, sua tendência já era vitoriosa. (...) Ainda que Eurípides tente nos consolar com sua retratação, não consegue fazê-lo; o mais esplendoroso templo jaz em ruínas, de que nos serve a lamentação de quem o destruiu, e sua confissão de que ele foi o mais belo dos templos?” Assim, Eurípides é descrito por Nietzsche: como o portador do fim de si mesmo.

Em Nostalgia, um poeta russo busca inspiração na Itália, seguindo os passos de outro poeta do passado, também russo e também exilado na Itália. Sua busca por propósito existencial coincide com a busca de seu antecessor. E tudo o que consegue nessa jornada é deparar-se com a fé na forma de loucura.

E como isso me recorda os dizeres de Raskolnikov frente à fé de Sônia: “O que é a fé dela? Uma loucura. Uma loucura necessária para viver. Talvez seja assim…”. Que fique claro que Dostoiévski, em última análise, ainda era um homem de fé. Mas era um homem de fé que conseguia vislumbrar com racionalidade o que essa mesma fé implicava para uma perspectiva exterior a ela.

Eis uma capacidade rara para filósofos e literatos: a de sair de si mesmo para se colocar na posição de um observador externo. Talvez essa seja uma das maiores riquezas que conferem profundidade à obra de Dostoiévski.

Não obstante, sua maior virtude como literato é, simultaneamente, seu maior defeito como homem de fé. Tal qual fizeram Pascal, Descartes e o deísta Voltaire, ele observava a fé com os olhos da razão. E, por isso mesmo, trata-se de uma fé agonizante, pois a razão implica a ausência de fé. Uma termina exatamente onde a outra começa.

E toda essa agonia de precisar acreditar naquilo em que, muito no fundo, não se acredita, é perfeitamente retratada na obra de Tarkovski. Ou seja, a ideia de que não há caminho para o homem nessa jornada exceto a loucura: ou nos tornamos niilistas e suportamos os golpes insuportáveis do Deus Tempo; ou assumimos que é preciso abandonar a razão para imergir na loucura da fé. Definitivamente, não recomendaria o filme “Nostalgia” para nenhum aniversariante.

Em reflexões futuras, pretendo explorar e aprofundar a questão da esperança e do propósito existencial. Será que realmente se restringem a essas duas opções o destino humano: o cristianismo ou o desespero insuportável? Pois, a despeito de, por vezes, sentir o vazio e o esmagamento da engrenagem do tempo, no âmago, considero-me uma pessoa mais feliz do que a média. E portanto, me sinto na obrigação moral de compartilhar a minha perspectiva sobre a vida. Contudo, abordaremos essa temática em momentos posteriores. Por agora, detenhamo-nos na nostalgia. Mais um ano que se foi. Por que razão louca temos por costume comemorar o avançar da própria mortalidade? Alguém aí sabe dizer?


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